O futebol, o delito e a vítima da imagem
Carta Aberta ao Excelentíssimo Sr. Geraldo Alckmin,
Governador do Estado de São Paulo.
Perplexos, assistimos, nesta terça-feira (18/10) a uma
reportagem do noticioso SPTV, da Rede Globo de Televisão, que exibia um
treinamento de policiais militares paulistas diante de situações críticas.
Na cena exibida para milhões de telespectadores, muitos
deles jovens e crianças, os atores encarnavam criminoso e vítima em aparente
situação de sequestro.
De maneira não menos absurda que ignominiosa, a vítima, de
cútis mais clara, vestia camisa do São Paulo Futebol Clube, enquanto o suposto
meliante, de pele mais escura, trajava a malha do Sport Club Corinthians
Paulista.
Não conseguimos imaginar qual seria vosso propósito ao
incentivar na corporação policial o ódio e o preconceito.
Há grave delito se vosso Secretário de Segurança Pública
incentiva essa prática. Caso sua escusa seja a ignorância, ainda assim
mereceria rigorosa reprimenda.
A bizarra dramatização serve apenas para cristalizar
opiniões distorcidas e categorizações antropológicas que não encontram espelho
na realidade.
Entre os 30 milhões de corinthianos, há, sobretudo,
trabalhadores, desde 1910, ano de fundação do clube no bairro do Bom Retiro.
São estas pessoas, operários, estudantes, advogados, juízes,
jornalistas, engenheiros, biólogos, médicos, veterinários, motoristas, empresários,
servidores públicos e colaboradores de organizações privadas, entre outros, que
constroem cotidianamente a riqueza de São Paulo.
Não por acaso, o Sport Club Corinthians Paulista é bastião
histórico da concórdia, patrocinador da miscigenação que deveria orgulhar o
povo deste Estado. Da célula empreendedora esportiva de Miguel Bataglia, surgiu
uma instituição popular que agrega brancos da terra, negros, índios e
descendentes de italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, sírios,
libaneses, gregos, entre outros.
Ao fantasiar de corinthiano um bandido imaginário, os
responsáveis pelo treinamento cobrem com a lama da vergonha não somente a
corporação policial como o próprio governo paulista, cujos olhos deveriam estar
atentos ao modelo de educação destinado aos agentes da segurança pública.
Nos últimos anos, temos acompanhado uma série de equívocos
na gestão de segurança nos estádios, particularmente no que tange ao tratamento
dispensado aos afiliados de nossas agremiação.
Registre-se, por exemplo, a absurda compartimentalização das
entradas do estádio do Pacaembu. Em nome da “segurança”, exige-se que milhares
de torcedores do setor Tobogã, inclusive mulheres e crianças, se espremam
diante de um único acesso.
Agora, sabemos o porquê.
Considerada a visão turva e insidiosa de vosso designados
para a Segurança Pública, somos cidadãos de segunda classe, ainda que paguemos
em impostos o mesmo que os aficcionados da agremiação tradicionalmente
associada à elite paulista.
É certo que esse tipo de cultura estúpida de exclusão
resultará em novos conflitos, condicionando o olhar dos policiais a presumir
culpa em qualquer torcedor mosqueteiro, o que ameaça a nós todos,
particularmente nossos jovens e nossas crianças.
Exige-se do senhor, portanto, pulso forte e autoridade para
punir imediatamente os responsáveis por tal injúria e apeá-los dos cargos de
comando que ora exercem. É o mínimo que se pode esperar diante de tamanha
infâmia.
MR777 - Resistência Corinthiana 777
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