quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ruína da Pólis, Ruína do Esporte


Mais uma feliz contribuição da Brigada Miguel Bataglia!
http://brigadamiguelbataglia.blogspot.com.br/2012/10/ruina-da-polis-ruina-do-esporte.html


Cabe recorrer à mitologia. Os Jogos Olímpicos teriam sido inaugurados por Hércules, para celebrar um de seus doze trabalhos.


Curiosamente, não se trata de derrotar um monstro poderoso e terrível. O tal trabalho celebrado é o quinto.

Precisou limpar os currais do rei Augias, que guardavam três mil bois e, havia trinta anos, não eram limpos.

O estado era tão terrível que a área estava envolta num gás fedorento e mortal. Para realizar sua missão saneadora, Hércules teve que desviar dois rios.

Ok, mas o que isso quer dizer? O significado é claro. O esporte tinha uma relação direta com gestão do espaço, atenção ao cenário, asseio e organização.

Esses elementos marcavam a administração da pólis, da cidade, desde o período arcaico até o período clássico.

No lugar ordenado e livre de contaminações, o homem podia exercer sua vocação para o pensamento e converter-se em “animal político”.

O esporte na Grécia antiga tinha um caráter híbrido. Misturava a preparação para a guerra e a lida em favor da paz.

Mesclava o caos da disputa à ordem do corpo, de músculos organizadamente trabalhados, nos quais se repetia a harmonia da arquitetura da cidade.

Acreditava-se numa relação comunicante entre os organismos vivos e a estrutura urbana.

Se somos todos gregos, como dizia Shelley, não é de se espantar que a vida de nossos estádios reproduza a vida de nossas urbes.

São Paulo é hoje, de maneira nua e crua, a negação da cidadania, a negação do direito público e a negação da vida comunitária.

É cada vez mais a cidade do controle, da proibição, do egoísmo, da intolerância e do preconceito, cujos pecados são estimulados pelos detentores do poder e pela mídia de manipulação.

Um Pacaembu repete com fidelidade as mazelas da urbe arruinada, mergulhada no caos, na violência e imundície.

Os ingressos são caros porque a vida na cidade é cada vez mais privada, é porque a meta oficial é restringir direitos de acesso.

Há poucos banheiros e eles são imundos, porque assim é nas ruas da capital. Nelas, não existe afago ao cidadão. Nela, estamos sempre órfãos e desassistidos.

Os caminhos ao redor da arena são sempre sinuosos e, não raro, há uma porta ou outra bestialmente interditada. Porque assim é a malha viária da cidade, confusa e deteriorada.

A guarda policial, no estádio, é antipática, inimiga e, muitas vezes, violenta contra os cidadãos que pagam seus salários por meio de impostos. Porque assim é a milícia paulista, herdada da Ditadura, raivosa, repressiva, inclemente, sempre a serviço da tirania conservadora.

O Pacaembu perdeu seu direito à festa franca. Sumiram as bandeiras e quase tudo que poderia expressar pela arte o júbilo popular. Isso porque a cidade também proibiu radicalmente os sinais e a comunicação visual. Porque o vazio degenerado é o padrão de beleza eleito pelos facínoras no poder.

O estádio perdeu suas bancas de nutrição singular. Porque a cidade tem ódio por qualquer gozo, entre eles o do paladar. É a cidade que proíbe a distribuição de livros e a solidariedade manifesta no sopão dos necessitados.

O Pacaembu é um paraíso estésico, mas coberto de espinhos por todos os lados. É agredido todos os dias por uma gestão que folgaria em submetê-lo a um ato de privataria, entregando-o a uma neosseita radical ou a uma construtora, que ali ergueria mais um pombal para a classe média alta.

O Pacaembu é o éden por seu carisma, pela lágrima do velho torcedor, pelo sorriso feliz da menina, pela memória que guarda de tantas artes populares, formidáveis dentro e fora do campo.

É, ao mesmo tempo, o alvo de quem se incomoda com a alegria pública. O Pacaembu é fustigado dia e noite porque é uma casa do povo.

Ali, o ingresso de Hércules é proibido. Culpa nossa, que nos rendemos aos tiranos. Culpa nossa, que aceitamos o primado da estupidez e da ignorância. Ruína do esporte como espelho da ruína da pólis.

2 comentários:

  1. Adorei muito bom, aproposito nós do grupo salforte9 estamos entrando em oração para que toda delegação corinthiana leve em segurança nosso timão para o Japão e mostre a nossa fé e alegria para o mundo todo, voltando também em paz e segurança com a mesma alegria de ser corinthiano. PARTICIPE amiga de fé.de nossa corrente. Deus te abençoe.

    http://salforte9.blogspot.com.br/2012_11_01_archive.html

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  2. Há muitos anos, sob uma luz bruxuleante, em ambiente humilde, fruto de ventre humilde, ele nasceu, para trazer esperança e glorificar o povo.

    Foi perseguido, difamado, injustiçado. Martirizado.

    Mas a sua mensagem de fé, de humildade, de congraçamento, por fim, triunfou.

    Atingiu a glória, nas alturas.

    Seu povo fiel vivencia o júbilo.

    Os humilhados foram exaltados.

    Feliz Natal.

    25/12/2012

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