quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os Vilões das Tarifas de Ônibus em SP

Em 30 de Julho de 1994 iniciava no Brasil o Plano Real, no governo Itamar Franco. Foi instituída a Unidade Real de Valor (URV), além do lançamento de uma nova moeda, o Real.

Em São Paulo, a prefeitura era comandada por Paulo Maluf, e a tarifa de ônibus passou a custar R$ 0,50 (cinquenta centavos de Real), após a conversão dos CR$ 1.200,00 Cruzeiros Reais (preço do ônibus até o dia anterior).

Desde o início do Plano Real até o fim da Gestão Maluf (31/12/1996) o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) - indicador que mede o custo de vida das famílias paulistanas -, variou 60,34%, o mesmo que o valor da tarifa de ônibus, que fechou a gestão em R$ 0,80. No gráfico, as evoluções do (1) custo de vida, IPC, (2) tarifa do ônibus e (3) custo real do transporte IPC Transporte:



É possível reparar no gráfico que há evolução dos custos tanto de vida quanto do transporte (linhas azuis escura e clara) que baliza o reajuste da tarifa. Em 19/06/1995 passou para R$ 0,65 e em 13/06/1996 para R$ 0,80. Nesta gestão a tarifa de ônibus apenas acompanhou o custo de vida. Não houve melhora na relação custo de vida das famílias / tarifa de ônibus que pudesse incentivar o trabalhar a abandonar o carro e utilizar ônibus. Ao menos na questão dos preços.

A gestão seguinte, do sucessor de Maluf, Celso Pitta, que compreende o período 01/01/1997 a 31/12/2000, o custo de vida na cidade evoluiu 16,74%, o custo dos transportes 47,5% e a tarifa foi reajustada em escandalosos 56,25%, mais do que o triplo do custo de vida! Veja no gráfico:



A diferença entre a linha laranjada, que representa o preço da passagem de ônibus e da linha azul escura, do custo de vida, é o da vilania, do roubo, do desvio de recursos do bolso dos trabalhadores para o dos tubarões do transporte público.

Pitta subiu a passagem para R$ 0,90 em 07/06/1997, para R$ 1,0 em 24/01/1998 e para R$ 1,25 em 13/01/1999.

Na gestão de Marta Suplicy (01/01/2001 a 31/12/2004) as tarifas foram reajustadas observando a tendência de elevação do custo de vida, sempre anterior a este, configurando ganho real aos empresários de ônibus. No período de sua gestão o custo de vida variou 35,73% enquanto as tarifas foram reajustadas em 36%, embora o custo de transporte tenha variado 48%, conforme vemos no gráfico abaixo:



Após a desastrosa gestão Pitta havia muita expectativa na gestão de Marta. A militância pressionou pela implantação de uma tarifa social de ônibus, que não acompanhasse o custo de vida, mas que incentivasse o uso social massivo do transporte, mas não foi atendida. Nesta gestão foi criado e implantado o "bilhete único".

Marta reajustou a tarifa de R$ 1,25 deixada por Pitta para R$ 1,40, em 24/05/2001, e em 12/01/2003 para R$ 1,70.

A gestão seguinte foi a de José Serra, iniciada em 01/01/2005 e terminada em 31/12/2008, pelo seu vice, pois Serra renunciou em pouco mais de um ano de mandato, em 31/03/2006. Nesta gestão o custo de vida evoluiu 18,77%, porém a tarifa do ônibus cresceu 35,29%, gritantes 88%, ou seja, quase o dobro. No gráfico:


Conforme vemos no gráfico, em toda gestão Serra / Kassab a tarifa de ônibus foi reajustada muito, mas muito acima da inflação. Aliás, Serra, como prefeito, bateu o recorde de reajuste de tarifa com menos dias no cargo. Desde então, as tarifas não pararam de crescer. Da mesma forma que Celso Pitta, acima inclusive do custo dos transporte medido pela FIPE. Nem Maluf conseguiu.

Serra, após 63 dias como prefeito subiu a tarifa de R$ 1,70 para R$ 2,00, e em 30/11/2006, seu vice, Kassab, a elevou para R$ 2,30.

Serra fez sucessor, o então prefeito empossado Gilberto Kassab, que iniciou sua gestão, como prefeito eleito, em 01/01/2009 e deixou a prefeitura em 31/12/2012. Kassab viu ao longo desses quatro anos o custo de vida das famílias paulistana avançar 19,91%, o custo dos transportes 15,88%, mas reajustou a tarifa em reluzentes 30,49, ou seja, 53% acima da inflação. Conforme gráfico:


Assim como nas gestões Pitta e Serra, Kassab ignorou a variação da inflação e custos reais de vida dos trabalhadores, assim como o custo dos transportes. O reajuste acima da inflação mostra o desprezo, a insensibilidade e a hipocrisia desses tipos de governantes que não furtam em tomar medidas de (ainda mais) transferência de R$ do bolso dos trabalhadores para o dos patrões do transporte público, que, diga-se de passagem, não usam transporte público.

Kassab, além de vice de Serra era secretário de Pitta, o que ajuda a compreender a (falta de) visão de planejamento público de pseudo-gestores do públicos. Na verdade servem a interesses privados, como vemos, apenas neste caso, a indústria nada transparente e competente de ônibus na cidade de São Paulo.


Ao longo desse período foram nos tirando, de centavo em centavo, quase o dobro do que a tarifa realmente deveria custar.

Considerando que o custo de vida variou 276% no Plano Real e a tarifa foi reajustada em 500%, no caso dela custar R$ 3,00, a majoração é de 81%. No caso dela ir para R$ 3,20, como foi, a majoração é de 96% acima da inflação.

Portanto, não podemos nos contentar com os R$ 3,00 com os quais a gestão Haddad assumiu e o Ministério Público pode recomendar a manutenção.

O preço correto da tarifa, lastreado em nosso custo de vida é de R$ 1,88.

Conclusões:

Este trabalho analisou a evolução da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo durante o Plano Real, o que compreende significativos 19 anos, com cinco prefeitos. Questões qualitativas e quantitativas não estão aqui, embora sejam sensíveis diariamente.

A dívida dos prefeitos com a cidade de São Paulo é histórica e a questão do transporte público é vital para a saúde social e sustentabilidade das metrópoles.

Como vemos, prefeitos estão na contra-mão disso, desencentivando seu uso através do sucateamento do serviço e aumento do preço.

Finalizo com o ranking dos vilões, aqueles que mais aumentaram a tarifa do ônibus em relação a inflação, da esquerda pra direita do gráfico.



R$ 3,2 É ROUBO!

R$ 3,0 É ROUBO!

POR UMA TARIFA SOCIAL PELA SOBREVIVÊNCIA E FUTURO DA CIDADE!!!

ESPERAMOS E PRECISAMOS DE UMA REVOLUÇÃO NO TRANSPORTE DE SP

HADDAD E JILMAR TATTO, MEXAM-SE!!!

19 comentários:

  1. muito interessante sua visao caro amigo eu acho justo que o povo acorde e cobre seus direitos afinal transporte publico ta quase virando transporte privado por esses valores exorbitantes

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    1. Pois é, Amigo! Quiçá este momento nos traga mais frutos do que a discussão sobre a tarifa, mas avance na discussão da mobilidade urbana como um todo. Abraços.

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  2. Muito boa análise, apesar de corinthiana, rsrs

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  3. Em algumas situações eu uso o carro para percorrer itinerários que eu poderia recorrer ao superlotado metrô porque é mais barato. Incrível, não?

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    1. Pois é, incrível e triste. O metrô tinha que ser sua melhor opção.
      Como diz o arquiteto Paulo Mendes da Rocha "consumir combustível não-renovável, emitir gás não-respirável, tudo isso para mover toneladas de metal, plástico e borracha com um indivíduo dentro..." As cidades precisam se re-inventar. Um abraço.

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  4. Olá. Quais são as fontes? Quem fez esse estudo?
    Obrigado!
    Bruno

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    1. Olá, Bruno.
      Tarifas, SP Trans. Aqui (http://www.sptrans.com.br/a_sptrans/tarifas.aspx)
      Inflação, FIPE. Aqui (http://www.fipe.org.br/web/index.asp?aspx=/web/indices/ipc/index.aspx)
      Um abraço.

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    2. Por favor autor, coloque essas bibliografias no fim do texto. Dará muito mais credibilidade à pesquisa.
      Sugiro ainda que forneça os links exatos das tabelas da FIPE que o senhor usou.

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  5. Ótima analise, só que também deve se levar em consideração que com a implantação do Bilhete único muitos utilizam de 2 a 4 integrações por viagem com uma única tarifa, se fôssemos pagar individualmente, mesmo que no "preço justo" acabaria saindo mais caro que na atualidade.

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    1. Caro Anônimo. Gostaria de colocar um fato sobre a questão do bilhete único. A implantação deste aumentou o número de usuários do transporte público. Recordo-me de um curso em Gestão de Cidades que participei, onde o presidente da CET mostrou estes dados. O aumento era significativo. O aumento da possibilidade de uso de diferentes transportes com a mesma passagem não deu prejuízo, mas lucro, pois o número de usuários aumentou. Portanto não há problema com o bilhete único.

      Rafael Moura da Cunha

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  6. Sensacional, isso responde aos atrasados que perguntam: tudo isso por 20 centavos?
    Parabéns pelo estudo.

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  7. Meu amigo, junte-se vossa pesquisa econômica pesquisa com a impetração de Ação Popular ao Poder Judiciário e teremos a revolução!

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  8. Muito bom, mas muito bom mesmo cara, meus parabéns. Estou elaborando algumas palestras para conscientizar estudantes sobre o grande esquema de corrupção que assola nossa cidade e gostaria de saber se o senhor permite a utilização deste material? Grato

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    1. Prezado Diego, fique à vontade em relação a qualquer informação contida neste blog. Um abraço.

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  9. Muito bom o estudo. Parabens.
    Ivone Estrela

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  10. Muito bom, mas o final nem tanto. Como querem que o Haddad em 6 meses resolva os anos aí comprovados de abusos no preço da passagem? Ele está propondo iniciar o processo, dialogando com o MPL. O que mais pode fazer agora, além de propor que se inicie esse trabalho? Alguém aqui não saber que o PSDB criou uma máfia nesse setor, como em tantos outros? Seria em 6 meses que se conseguiria resolver isso?

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  11. O IPC acompanha a evolução de uma cesta de produtos em São Paulo. Ou seja, ele é composto por itens que vão desde tomate até carros. Para determinar se o aumento é legítimo ou não, o que deve ser estudado é a evolução dos custos do transporte público, Nesse caso, ignoram-se os itens como tomate e é contabilizada a variação nos itens que mais afetam o custo do transporte: mão-de-obra, combustível e equipamentos (ônibus) e energia elétrica, mão-de-obra e equipamentos (metrô).

    Como o salário mínimo paulista e, em especial, os pisos salariais de condutores e cobradores de ônibus, subiram muito acima do IPC-SP, essa estimativa de R$1,88 fica sendo muito otimista. Eu fiz um estudo dando peso de 50% para combustível e 50% para mão-de-obra e descobri que a variação de custo foi MAIOR do que a variação no preço cobrado ao usuário.

    Não bastasse isso, o paulista vêm tendo ganhos reais de salário (ou seja, o salário mínimo aumenta acima do IPC-SP) há pelo menos 3 anos. Em virtude das previsões negras para a Economia nacional (PIBinho, inflação etc), acredito ser insustentável manter essa política de não-repasse do aumento de preços.

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  12. Parabens!!! Canções - Jorge de Altinho - Nem a lua quer me ver - 1998 - musica 8 - Corinthians. abraço

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