segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Socializa-te, Corinthians. Irmaniza-te, Torcedor.

Torcedores Corinthianos recebidos pelo tapete vermelho, digo, alvinegro, do Centro de Treinamento Joaquim Grava. Torcedores Corinthianos, patrimônio da humanidade, força mobilizadora, espírito agregador de celebração, alma do desporto, liberdade civil, arma e orgulho dos que vivem a margem.

Invadimos o Rio de Janeiro duas vezes, o Japão, e assim fazemos com todos os Estados desse Brasil que é nosso. Jogamos em casa, sempre, sem nunca ter precisado conter em nosso balanço patrimonial a propriedade de direito dos estádios. Eles nos são de fato, por usufruto, quase que usucapião.

Na nossa casa entramos, bebemos água da biquinha, rezamos na capela, acompanhamos aos treinos no gramado sagrado do Parque São Jorge. Não invadimos nossa própria casa. Nela entramos. A não ser que a porta esteja trancada por dentro e que haja estranhos por lá, fazendo uso indevido de nosso patrimônio, apropriando-se dele e valendo-se de ações excludentes.

Administrações recentes do Corinthians vão na contramão da história do clube ao incorporar da forma mais cruel a segregação social do meio em que ele está inserido. Ao invés de transformar a sociedade, é a mesquinharia que vem transformando o “Time do Povo” sem saber resolver a equação de ser Time Rico sem ser Time Pra Rico.

Ingressos são fonte irrisória para as finanças do clube, mas por outro lado são nossa maior força dentro de campo e nosso maior “produto” fora dele. Os estádios encontra-se em números pífios de ocupação e a anuidade do plano Fiel Torcedor é um tapa na cara do trabalhador Corinthiano (R$ 180,00 o titular + R$ 90,00 por dependente). Estas são contra-contas de receita para o clube. A administração do clube deveria incentivar a ida do torcedor ao estádio e não colocar cada vez mais catracas entre ele e o time.

Os portões trancados do Centro de Treinamento imaginário – sim, imaginário porque quantas pessoas o conhecem? – revelam um Corinthians apropriado, privado e privando, excludente, secreto, obscuro e autoritário.

Obscura como a lista de convidados para o show da Ivete Sangalo no estádio novo, há alguns meses, no dia anterior de uma vexatória goleada. Não se sabe quem pagou, o quanto custou e qual o critério para seleção da lista. Uma certeza é que o critério não foi ser sócio do clube, nem ter uma quantidade enorme de jogos comprados no Fiel Torcedor. Essa festa, à lá Fungencio Batista em cassino Cubano nos anos cinquenta do século passado, foi a demonstração de que a Coisa Pública Corinthiana é utilizada para fins privados. Claro, com o clube pagando a conta. Socializa-se a dívida, privatiza-se o glamour.

Ter entrado no show da Ivete não garantirá entrada nos jogos do Corinthians na nova “arena”, pela política de preços e acesso aos serviços. E muito provavelmente uma coisa tem a ver com a outra. Ter entrado no show da Ivete, e bebido di grátis, também não dá direito a contato com servidores do clube, como atletas e demais contratados. Nem a presença digna em nossas dependências. Quando é assim, chama-se a polícia. Pão e circo. Mas se quiser ter contato com nossos servidores, pague por isso.

Em muito nós torcedores devemos em organização e conscientização. Ferramentas como o Conselho do Clube não funcionam, são tão viciadas quanto secretas, funcionam na surdina, autista, sem a capacidade, ou vontade proposital, de se comunicar com o mundo externo. Lamentavelmente. Na verdade acabam por legitimar o estado de coisas, por funcionarem da mesma maneira.

O grupo de Corinthianos que se sujeitaram a entrar pelas portas dos fundos em sua própria casa, lugar esse que deveria ser o destino de saída da malta usurpadora, tendo que burlar segurança privada, cortar grades e usar expediente de intimidação física, usando como primeira ação o que deveria ser o último recurso, é o retrato de uma torcida sem método, sem discurso, e sem projeto. O projeto é fruto da caracterização de uma realidade. A caracterização é fruto da polêmica, da discussão, da utilização mais do ouvido que dos punhos, do respeito as diferenças de opinião, pedra filosofal de nossa origem. Mas polêmica não vinga em estruturas baseadas no culto ao personalismo, hierarquicamente verticalizadas, de onde num presente recente conseguiram apenas extrair uma paleolítica homofobia e adjetivações perseguidoras de cunho moralista a determinados atletas. Método e discurso são frutos do trabalho cotidiano, organizado e de massas, que só pode ser sufocado pelas anomalias citadas acima: personalismo e verticalização. O personalismo e a hierarquia inibem o Procedimento, transformam a Lealdade em troca de favor, e a Humildade em submissão.

Quer saber se uma manifestação é democrática? Avalie a possibilidade de crianças, mulheres e deficientes físicos participarem dela. Quer saber se uma manifestação é legítima? Torne-a pública, discuta, debata, dê as caras, procure vias públicas e, é claro, a porta da frente. Se a verdade está conosco, estamos temendo o que? O método black bloc é deseducador e ineficiente. Mantem toda a estrutura em funcionamento, mas busca compensações em fazer arranhões em fechadas.

Pelo jogo de ontem sabemos que não teve êxito futebolístico a visita indesejada dos torcedores. Mas teve consequências: em uma tacada só uma enxurrada de desmentidos, falsos informes, informações desencontradas, o aprofundamento da cisão entre torcedores que, embora tenham o mesmo objetivo (O Corinthians Grande) discordam do método, a marginalização dos torcedores e vitimização do delegado, vejam vocês...

Tudo isso posto num momento imediatamente seguinte a uma inaceitável e suspeita bajulação ao treinador anterior, que, abandonado pelo Diretor de Futebol a época, Roberto de Andrade, que o jogou aos leões, teve um final de trajetória no clube dos mais medíocres e vexatórios, com direito a inúmeras derrotas, incluindo goleada, escassez de gols, apatia, postura covarde e, coroando a perdição futebolística, a luta para não ser rebaixado.

A Diretoria de Futebol, seus gerentes e coordenadores, que são os que contratam, descontratam, combinam salários, chefiam as equipes técnica e médica estão sempre fora do alvo dos protestos. Inclusive o ex-presidente Andrés Sanches, patrono dos atuais presidente e candidato a presidente no ano que vem. O time tem sido reflexo de sua direção.

Há muitas cercas a serem derrubadas. Pra viver o Corinthians secular, galo brigador, leal adversário, aquele que devolveu o futebol ao Povo, temos primeiro que rever a maneira como nós, Torcedores, estamos nos tratando. Há que se refundar o sentimento de irmandade Corinthiana, aquela que acolhe indistintamente classe social, raça, origem, credos e preferências, hoje tão segregada quanto a própria setorização dos estádios e prestação de serviços da vida social. Intolerância e individualismo, sintomas de uma sociedade doentia, não podem subverter o fenômeno social Corinthians. O contrário é que deve acontecer.

Uma arquibancada unida gritando Corinthians. O CT de portas abertas no dia 15 de fevereiro para sentir o calor da torcida as vésperas do clássico.

Esta transformação do clube acolhedor, o qual não precisamos “invadir pelas portas dos fundos”, tem que começar por nós.
 
#VamosCorinthians

4 comentários:

  1. Quando a gente gosta de escrever, as chances de um texto fica bom. Mas às vezes, algo acontece, e um texto bom se transforma num texto mágico. Parabéns, sensacional!

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  2. muito bom texto , triste é ver o Todo poderoso ser obrigado a ser cara e coroa , o melhor e o pior exemplo , do amor incondicional e muitas vezes amargo com gritos em lágrimas de "eu nunca vou te abandonar" há total amnésia de um passado recente . Maloqueiro não é marginal , e não se justifica o ódio com amor , pelo menos não se deve fazer.

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  3. Imprtante reflexão sobre o momento em que passa o Corinthians. Muito bom. Daniel Pereira Pinto

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