sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Itaquera: o retrato do apartheid Brasileiro no futebol

O capítulo V da Lei Nº 10.671 de 15 de Maio de 2003, Art. 20, estabelece entre outras coisas que menores de 12 anos e maiores de 60 anos são considerados não pagantes no estádio municipal do Pacaembu. Em Itaquera é diferente, por se tratar de um estádio privado. E sendo privado, “o dono”  faz o que quer, servindo a interesses privados, não é verdade? Mas quem é o dono do estádio de Itaquera?
 
Considerando 40.000 ingressos disponíveis no Pacaembu raras vezes tínhamos mais de 1.000 não-pagantes, o que corresponde a 2,5% do público total. Na maioria das vezes menos da metade disso.
 
Em Itaquera, no primeiro clássico disputado pelo Corinthians, entre todos os dados curiosos vindos das “cadeiras” um chamou-me a atenção: 2.139 ingressos promocionais. Fazendo o cruzamento entre público por setor versus preço dos ingressos temos que estes ingressos promocionais tiveram custo ZERO a quem o utilizou.
 
2.139 ocupantes correspondem a 7% dos 31.031 pagantes, mas em Itaquera criança e idosos não podem se valer da lei municipal... "O estádio tem que se pagar, blá, blá, blá.." Mas quem explica estes "ingressos promocionais"? Qual o critério para distribuí-los e quem são os beneficiados?
 
Mais da metade dos ingressos grátis foram para os setores mais caros e confortáveis: 150 camarotes, 317 VIP's e 679 Oeste. Para o "torcedor comum", que vai a bilheteria adquirir seu ingresso (48% nesta partida), isso corresponderia a uma renda de R$474 mil, ou, 21% de acréscimo nos R$ 2,25 milhões arrecadados. Fazendo justiça, cada torcedor poderia pagar menos ao invés de financiar "o lado vazio de Itaquera".
 
O Setor Oeste do estádio de Itaquera é digno de ser batizado LATIFÚNDIO. Uma grande e desproporcional área improdutiva cuja propriedade é concentrada. Lá a média de ocupação é de 25%: 1 cadeira ocupada em cada 4. Nas 3 cadeiras vazias para cada torcedor que se aventura por aquelas bandas estão uma mescla de arrogância e ignorância de quem "administra" a política de preços de ingresso. E cabe apertado, dada vultuosa aberração nos moldes do apartheid.
 
Em um País que se propõe a reduzir a desigualdade social, e em um futebol que se pretende e necessita ressuscitar e recuperar décadas de atraso, o estádio de Itaquera é um símbolo do que há de pior em exclusão sócio-econômica, segregação social, apropriação de símbolos populares e coletivistas para usurpação individuais.

"7x1 foi pouco". Tudo isso, alinhado a campanha da mídia vira-latinha "não vá ao estádio", é o caminho para a falência do futebol.
 
Mesmo com os ingressos mais caros entre os mais caros do mundo, o Latifúndio Setor Oeste é o que menos participa na arrecadação das partidas. No caso deste clássico menos inclusive do que os setores Norte e Sul, dividido por tapumes com os visitantes. O setor Leste tem mais da metade da receita média das partidas, embora tenha público apenas levemente superior ao que fica atrás dos gols. O público de Itaquera sem seu "lado vazio" supera 80% de ocupação.
 
Além disso, o latifúndio naturalmente será sempre o que menos participará da força da torcida nas partidas, aquela que é e foi capaz de ganhar jogo, com vitórias históricas, viradas heróicas, e intimidação de tremer qualquer adversário.
 
O Corinthians é menor com o Latifúndio Setor Oeste de Itaquera, mantida a política culturicída, gananciosa e burra.

O torcedor ao invés de parte constituinte da atmosfera do espetáculo "prática do futebol em estádio", que muitas vezes é mais interessante do que o acontece dentro de campo, está sendo convocado para ser o patrocinador, e não convidado de honra. Estamos sendo convidados a pagar uma conta da qual não participamos do planejamento nem da execução, não sabemos com quem, o quê e quanto foi gasto, e nem pra quem vai o dinheiro presente e futuro.
 
Em mais este aspecto social, os mais pobres continuam pagando pelos mais ricos.
 
O eterno Corinthians deve romper com a lógica de exclusão iniciada por Rosemberg e aprofundada com o estádio novo, sempre sob a batuta de André Sanches.
 
Todo o conjunto de torcedores Corinthianos deve se unir em torno de reconstruir nossas alianças, fortalecendo a fraternidade, o senso coletivo, plural e includente. Esse New-Corinthians "rico e pra rico" é a destruição de nosso significado enquanto fenômeno socializador e ferramenta de transformação.
 
O novo anti-Corinthianismo está administrando o Estádio e levando nossas bandeiras históricas a falência.

No próximo post faremos uma proposta para o preço dos ingressos e convidaremos todo Corinthiano a fazer a sua.

Venceremos os traidores, Wadihs Helus dos novos tempos!

4 comentários:

  1. Eu como idoso não pagava ingresso no Pacaembu, em compensação cada camisa que o CORINTHIANS lançava era 6 camisas que eu comprava para os netos filhos e noras, esta ultima já deixei de comprar, hoje nem eu querendo comprar ingresso eu não consigo pois não sou sócio torcedor, estão me tirando o direito de ir ao estadio, mas não esqueça derrubamos o Dualib, não custa nada derrubar esta corja.

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  2. Querem Arenas ao invés de estádios, em alusão a Europa, só esqueceram que para isso precisamos de um país de nível europeu em todos os âmbitos sociais e econômicos.

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  3. Queria muito levar minhas filhas de 8 e 9 anos para conhecer nossa casa, porem como elas não tem o beneficio da lei como vou pagar 200,00 no ingresso? Nossa visita a Arena sairia pela bagatela de 800,00 mais que um salario minimo um absurdo lementavel.

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  4. Palavras muito bem escritas, mostram bem o sentimento que nós Corintianos de verdade temos. E pensei que quando tivéssemos nosso estádio teríamos simultaneamente a sensação de igualdade. Enquanto pago para ver o jogo no setor norte atrás do gol, alguns privilegiados assistem ao jogo de graça no meio do campo, aposto que ainda têm serviço de buffet à disposição, tudo de graça. Não me conformo é lamentável.

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